Indignada subo a escada, corro para porta , abafada por um zumbindo surdo, abro a porta, vejo a mesa, aquela que ele se debruçava todos os dias, o cachimbo ainda morno, a janela entre aberta, sua caneta pousada de pó...não existe mais nada...sim não há mais nada...sento em sua cadeira e não penso em mais nada...
-choro como se fosse morrer...não é possível resistir...
Sem meu poeta nada mais existe...por um momento o zumbido para, seu diário imaculado, estava ali, ali no fundo da gaveta, tranqüilamente esquecida aberta, o segurei em minhas mãos duplas, e no fundo das minhas lembranças ele retorna e num ato desumano, leio suas confissões...
Por que somos tão imperfeitos
e tão imperfeitos são nossos relacionamentos
que nada entre....
-Cada palavra delicadamente pousada no papel, tão firme,tão sólida, sempre secreta, ele dizia: “segredos meu amor, significam surpresas futuras e nenhuma desilusão,se vier de mim.”
Como posso trai-lo, sinto me invadida de terror por mim mesma, qual castigo viria eu a sofrer por tal ato...Olho o quarto, com uma ligeira desconfiança,como se os livros me denunciassem, sem pena da minha pobre alma abandonada... pausadamente volto a ler.
...entre tantas coisas me bastaria para ama-la.
Nenhuma ilusão, nenhum afeto, nada...
Nada alem da significância de seu olhar
De manha, ao acordar e me dizer...
tua, nada mais que tua presença,
Significa para mim, como mais um livro empoeirado e já lido, na estante.
Sorria e admirava a sua doce sinceridade
mesmo assim são tantas coisas que não nos deixam sozinhos...
Respeito, era tudo que ele me pedia, respeito à não tentar olhar de soslaio suas escondidas perfurações, cicatrizes infinitas, nunca vista por ninguém...
Dizia-me que tudo que fosse escrito para mim, seria eu a primeira e se quisesse a única a ter a liberdade nostálgica de ler, não poderia agora eu, quebrar o acordo, o único acordo que fizera naquela inconstante vida, naquela relação invisível minha, naquele cotidiano variável entre ilusão e criativa realidade.
Abandono o diário, em cima da mesa, nada ali me diria algo que não sei, nada preencheria as questões pausadas no ar, os afetos deixados de lados e os olhares mal explicados...Ao se despedir, sempre dizia algo irrelevante e repetitivo, para que tivesse um bom dia, ou ficasse bem, eu sorria em reposta, e antes de fechar a porta, respondia meu sorriso com disseres de sua mãe, “o que não é dito, é mais facilmente esquecido”, batia a porta e seguia.
Resolvi ao analisar o vento ao bater na cortina e suas sobras provocadas em cima do diário, que as únicas lembranças que estariam comigo, seriam todas as suas palavras nos seus solitários dias, e nada mais, retornando a gaveta, ele seguiria e nunca mais voltaria.
Por um instante, êxito, folheio novamente, por puro acaso do manuseio, e paro em um folha rabiscada.
Dedico os meus dias
A tudo que foi...
A musica que não ouvi
A pintura que não enxerguei
Ao filho que não tive
Ao amor que evitei
A pessoa que nunca fui
...dedico a minha vida.
Espanto e desejo de iniciar a leitura desde o primeiro escrito, a primeira pagina ate os últimos suspiros anotados nas bordas das paginas. Resisto? Sim, resisto... talvez só mais uma folha, somente mais uma, e todo o resto ficaria em segredo, como ele desejara...ao abrir novamente, cai um bilhete.
Para minha querida Helena*
Como ele sabia,como sabia que eu o trairia, como descobriu minha fraqueza, antes de mim mesma, o zumbido retorna mais nauseante e ensurdecedor como se estivesse chegando um grande vazio, envolvida, por um momento, cause me deixo levar, silencio... uma lagrima acida escorre rasgando minha face em duas...firmo novamente as mãos abandonadas no ar, localizo-as em frente aos olhos e vejo.
Tenha um bom dia!
Papai te ama.
Impossível de resistir...sorrio...para mim, para os livros, para aquelas palavras nunca tão doces, nunca tão belas...levanto, sigo ate a estante, retiro um livro e coloco o diário no lugar.
E começo a ler.
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